A avaliação de materialidade representa um componente fundamental da sustentabilidade corporativa, pois orienta a identificação e a priorização dos temas mais relevantes para a organização e suas partes interessadas, influenciando decisões estratégicas e práticas de gestão. No entanto, abordagens tradicionais baseadas no modelo Environmental, Social and Governance (ESG) frequentemente agregam as percepções das partes interessadas de forma pouco estruturada, sem diferenciar sua influência institucional e sem tratar formalmente a incerteza inerente aos julgamentos humanos. Isso resulta em matrizes que aparentam rigor, mas cuja construção carece de transparência.
Este estudo propõe uma metodologia transparente e auditável para a construção de matrizes de materialidade, explicitando os critérios de agregação das percepções das partes interessadas e diferenciando suas influências institucionais. A metodologia integra o modelo Environmental, Social, Governance and Pessoa (ESG+P), que amplia a abordagem tradicional ao incorporar explicitamente a dimensão da Pessoa; os pesos PLU (Potência, Legitimidade e Urgência), que representam a influência institucional relativa de cada parte interessada; e a lógica fuzzy, que fornece o arcabouço matemático necessário para representar julgamentos linguísticos graduais e imprecisos ao longo de todo o processo de cálculo.
A materialidade é definida como um consenso fuzzy, modulado pela influência institucional. Inicialmente, a relevância de cada tema resulta da percepção coletiva dos grupos de partes interessadas que o avaliaram, ponderada igualmente entre eles. Posteriormente, essa relevância é ajustada pela influência institucional média desses mesmos grupos, em uma etapa separada. A separação explícita entre a formação do consenso e a modulação institucional ao longo de todo o processo de cálculo diferencia esta proposta das abordagens tradicionais de ponderação direta.
A metodologia é demonstrada em um estudo de caso ambientado no setor hospitalar, com dados experimentais construídos a partir de documentos públicos, e não coletados diretamente das partes interessadas da organização. A aplicação demonstra a viabilidade operacional do método e permite uma comparação estrutural com a abordagem tradicional adotada pela mesma organização. Os resultados mostram como a metodologia proposta introduz, em relação ao processo tradicional comparado, um índice contínuo e auditável em lugar de um corte binário, uma faixa explícita de incerteza que acompanha esse índice, e a quantificação de divergências entre as perspectivas interna e externa modeladas no conjunto experimental sobre um mesmo tema, informação que uma matriz de escore único não expressa.
Palavras-chave: Matriz de Materialidade; ESG+P; Lógica Fuzzy; Pesos PLU; Partes Interessadas.